
UM BREVE DESPERTAR
Estávamos no outono e o frio costumava ser meu companheiro na solidão.
Naquela manhã estava nevando um pouco quando abri a janela num rompante agitado porque o cortador de lenha já estava em frente à cabana empilhando as toras .
Meu pai já estava na cozinha preparando nosso desjejum, então me apressei correndo para o banho tal era minha ansiedade em usar aqueles produtos que Jane trouxera ontem. Meus cabelos estavam desidratados e duros como palha de aço. Ela sempre dizia: “uma moça precisa estar bem cuidada, principalmente se estivesse em idade de casar”. – não era meu caso, embora eu já tivesse passado dos 25 , porém meu pai, meu cachorro e meus livros era tudo que eu precisava.
A banheira já estava espumando quando entrei. . Devo confessar que naquele instante senti uma leve necessidade em estar acompanhada, mas logo varri essa idéia da cabeça concentrando-me nos cremes e sabonetes que olhavam pra mim exalando seus perfumes.
Os latidos de Jimmy estavam insuportáveis, enquanto meu pai ralhava com ele, e tudo por conta do lenhador. Jimmy detestava lenhadores e suas tralhas.
Mais tarde, depois da caminhada eu voltaria para a máquina de escrever. Havia capítulos por terminar e minhas idéias estavam nubladas.
( Lu C.)
Vesti meu velho e maravilhoso casaco marrom e coloquei meu acetinado chapéu marrom, tudo combinando. Corri para a porta e desci rapidamente a escada que me levava à rua.
Papai havia comprado nossa casa com os sacrifícios diários de seu trabalho, e agora ela estava hipotecada, para nossa tristeza e desolação.
Vasculhei as lojas da cidade à procura de um presente para Jane, afinal ela era minha melhor amiga e me trouxera perfumes e produtos de beleza na véspera. Mas eu não podia retribuir à altura tamanha generosidade! Tudo o que eu podia oferecer-lhe era o que uns trocados podia comprar.
- Vinte dólares - disse a vendedora.
O vento frio e a neve entravam em meu espírito e me traziam doces e ternas recordações.
Emergida em meu transe, voltei para casa, onde um café estava sendo preparado e uma frigideira quente no fogão a lenha esperava o momento de fritar os ovos com bacon, minha refeição preferida.
Quando olhei o grande relógio de ouro da sala, vi que o tempo havia se arrastado e eu nem havia percebido!
(Graça Lacerda)
Terminado o café, subi para a biblioteca na intenção de trabalhar nos capítulos que ainda faltavam. Meu editor estava intransigente, não abriria mão da data estipulada para a entrega dos originais do livro. Mas parecia que uma guerra estava se desenvolvendo entre meus personagens e eu, como se eles tivessem tomado vida própria, como se quisessem seguir seus próprios caminhos e não aquele que originalmente lhes fora traçado.
Mais de uma vez isso acontecera e no final eu sempre acabava deixando que eles fizessem suas escolhas, que eles encaminhassem a história. Confesso que nem sempre encontro coragem para enfrentamentos, nem mesmo com personagens criados por mim mesma. Mas desta vez não cederia.
Sentei-me diante da máquina, relendo os últimos parágrafos escritos, para poder bem retomar a história e, com um sorriso meio sarcástico no rosto, murmurei entre dentes: "Muito bem Dr. Hernandez, vamos ver se o senhor vai ou não vai àquele jantar..."
(Dulce)
Ylana respirou fundo, decidindo dar um rumo a Hernandez antes que ele a transformasse em sua escrava. Sentou-se em frente a maquina de escrever, e sua memória voou ao passado:
Ylana era frágil e sensível, e tinha uma capacidade instigante para criar. Talvez por isso sua mente lhe pregava peças como naquele domingo, quando ainda tinha 18 anos e estava em férias na casa dos avós no litoral sul da cidade.
Ela molhava o jardim, na frente da casa, e estava metida num shortinho jeans com a barra em fiapos e uma regata azul bordada em miçangas que lhe conferia o aspecto de bonequinha de vitrine. Os cabelos de um louro acinzentado brincavam com a brisa que vinha do mar. Os pés estavam nus e experimentavam a liberdade juntamente com a água que escorria da mangueira. Estava tão entretida dentro da paisagem que nem percebeu que alguém se aproximava. Estava agachada arrancando algumas ervas-daninhas do canteiro quando sentiu um toque firme e extremamente inesperado. Num sobressalto levantou-se e viu a figura de um homem de meia idade que trazia já a prata do grisalho nos cabelos desalinhados . No rosto exibia um breve sorriso camuflado por óculos escuros e a boca fazia prenúncios de fala, valorizando a barba cerrada ainda acastanhada.
_Boa tarde senhorita, seu avô está?
Meio sem fôlego e ainda caguejando, Ylana se recompôs dizendo:
_A quem devo anunciar, senhor?
_ Dr.Hernandez, a seu dispor.
(Lu C.)
E antes mesmo que eu pudesse dizer: - não se encontra, ouvimos todos, estarrecidos, um grande grito, que abalou a casa toda.
- Corram!
(Graça Lacerda)
Com lágrimas a lhe escorrer pelo rosto Ylana retornava ao presente fazendo um esforço enorme para continuar a escrever e também disfaçar sua tristeza para que seu pai não percebesse.
Entrementes a moça cogitava um pensamento:
"... Se não fosse Hernandez naquele dia, nem sei o que seria de mim."
(Lu C.)
Lembrava-se claramente dos momentos terríveis por que passara naquele dia. Ao ouvirem o grito, ela e o Dr, Hernandez entreolharam-se aturdidos e sem que uma palavra fosse dita correram em direção à entrada da casa. Subiram os degraus em desabalada carreira e ao abrirem a porta deram com a empregada da casa segurando nos braços a velha senhora que, desfalecida, trazia no rosto uma palidez assustadora.
Sem uma palavra, o Dr. Hernandez tirou-a dos braços da moça colocando-a sobre o chão de mármore do vestíbulo, começando ali mesmo a aplicar os primeiros socorros enquanto Ilana, chorando, dirigia-se ao telefone para, obedecendo a uma ordem dada pelo médico, chamar uma ambulância.
(Dulce)
A moça lembrava ainda do dia seguinte...Uma garoa fina descia do céu como uma esgarçada gaze cinzenta,deixando as cores da paisagem,esmaecidas.O lento passar das horas naquele corredor imenso,em sua alva brancura resplandecente e imutável,que divisava da sala onde estava, apertava seu coração...No fim do corredor,sobre uma estreita janela,um relógio marcava,implacavelmente o tempo. O hospital onde estava sua avó era um prédio moderno e frio,bem equipado e famoso por seus profissionais...Mas,sentada na sala de espera a moça perdia-se na contemplação muda das pessoas que transitavam ali,entrando ou saindo pela grande e envidraçada porta giratória,que qual boca gigantesca,despejava pessoas desconhecidas...Era multidão,mas Ylana sentia-se desesperadamente só...
(Cezarina Caruso)
Não era fácil para Ylana pensar que poderia vir a perder a sua avó. Lembrou-se do dia em que se encontrara naquele mesmo hospital, esperando no colo de seu pai por notícias de sua mãe que estava na sala de cirurgia.
Ylana perdera sua mãe antes de completar oito anos. Um câncer generalizado em seus órgãos pos fim a sua jornada terrestre aos 38 anos de idade. Lágrimas escorriam da fase de Ylana. Pensou em seu pai, que nunca conseguira refazer sua vida amorosa. Lembrou-se da sua infância solitária e dos poucos amigos. Quando seu pai precisava viajar deixava-a sob as guardas de seus avós.
Ylana despertou de seus pensamentos e voltou para a realidade. Precisava dar um destino para o personagem Hernandez. Quantos livros escrevera desde que descobrira o seu dom? Ela sabia que seu personagem tinha vida própria. Se ela fosse verificar seus outros trabalhos, certamente encontraria “Hernandez” com outros nomes e outras funções. Ylana sabia o que tinha acontecido naquela tarde quando o conhecera. Ela tinha apenas dezoito anos, mas apaixonara-se ao ponto de nunca mais conseguir olhar para outro homem.
Uma brisa entrou pela janela deixando o perfume de seu corpo no ar. Uma sensação de prazer passou por si e ela imaginou o seu personagem como alguém que desejava amar. Entregar-se. Desejou naquele momento não só o personagem, como o homem que batera a porta de sua avó naquela tarde.
O telefone tocou e Ylana despertou de seus pensamentos.
( Su Angelote)
Com os olhos revirados e a boca retorcida, Ylana disse um alô enjoado pois do outro lado era Garcia, seu edtor.
Enquanto escutava o lenga lenga insistente sobre a capa ,orelhas e contracapa de seu livro, a moça fitava a branca paisagemm que rodeava seu chalé, deixando sua mente voar naquele céu nostálgico em prenúncios de fim de tarde.
Garcia tagarelava adjetivos e preposições num emaranhado de perguntas até que Ylana o interrompeu:
_Ok Garcia, já falamos sobre tudo isso. Na verdade, acho um pouco cedo para a escolha da capa. O texto de contracapa, já está finalizado e tem uma íntima ligação com a imagem da capa. Portanto ainda estou estudando. Dizendo isso,desconversou, despachando o editor.
Quando ia virar-se na cadeira para chamar seu pai, deparou-se com ele segurando uma bandeja de inox com toalha em macramê rosada e sobre ela um suco e duas fatias de pão com geléia e pasta de amendoim.
Ylana sorriu agradecida, pronunciando o queixo e beijando a face de seu velho e querido pai.
(Lu Cavichioli)
Naquela noite,Ylana escreveu até muito tarde...Sua mente fértil criava sem parar! Foi deitar-se quando as estrelas se desvaneciam e a madrugada debruçava-se sonolenta sobre os primeiros e tímidos clarões de um novo dia.Tomavam o café sentados em torno da mesa redonda da cozinha,os dois,Ylana e seu pai,enquanto Thor,seu gato de estimação dormia sob a janela...O sol punha chispas de luz nos objetos e,na toalha axadrezada da mesinha gotejava pingos de um amarelo vibrante.O retinir áspero da campainha da entrada veio quebrar a paz do momento,como uma pedra atirada num lago parado e silencioso..."Quem será?"murmura Ylana surpresa,arredando a cadeira e levantando-se....
O carteiro segurava um envelope cheio de selos coloridos e o entregou a Ylana,sorridente."Bom dia,menina!"Ele a conhecia desde criança...Despedindo-se entre sorrisos o velho carteiro se foi pela estradinha sinuosa de terra vermelha,debruada por uma verdejante cerca viva,montado em sua bicicleta .
A moça olhou o envelope e divisando a letra conhecida estremeceu,como se um vento frio a percorresse toda!Uma letra bem feita sobressaía entre os selos comemorativos...Exma srta Ylana Vlasekh...e virando o envelope surgiu o nome do remetente! Seu coração disparou num assomo de emoção!Podia-se ouvir o arfar de sua respiração entrecortada: Dr.Hernandez Valenzuela y Herrera. "Meu Deus!Ele de novo...depois de tanto tempo sem dar notícias!" E as cenas de uma triste e emocionada despedida surgiram-lhe diante da memória...Uma cena acontecida há nove anos atrás! Uma cortina salgada de lágrimas embaciavam seus olhos quando,envelope ainda fechado nas mãos,entrou em casa...
(Cezarina)
Ao bater a porta cabisbaixa, logo percebeu o olhar do pai em sua direção.
Henry olhou para a filha , abaixou a cabeça, mordendo levemente os lábios indagando em seguida:
_ Carta daquele homem, filha?
Ylana, limitou-se a responder com um simples vai e vem do pescoço, enquanto as lágrimas rasgavam suas entranhas.
_Filha, espere. Olhe pra mim... Você precisa resolver esta situação. Estou velho, por vezes caducando e quando me for, você ...
Ylana interrompeu o pai bruscamente:
_ Pare com essa conversa, o senhor sabe que detesto ouvi-lo falar desse jeito.
Meneando a cabeça Henry afastou-se e seu íntimo lhe dizia que algo de novo estava para acontecer.
(Lu Cavichioli)
Sentada na poltrona vermelha de seu quarto,Ylana rasgou o envelope com dedos trêmulos.A bela letra graúda e elegante embaciava-se diante dos olhos da moça...Cenas do passado passavam como flashs diante dela. Com seus dezoito anos, em plena adolescência,apaixonada por um homem que tinha idade para ser seu pai!Um homem cujos cabelos grisalhos e olhar cansado roubara-lhe o coração cheio de sonhos inocentes...Ele que lhe prometera casamento e a enganara com suas promessas .
Era este homem que agora lhe escrevia solicitando-lhe o favor de receber e auxiliar seu único filho que vinha para a Universidade de Oxford fazer Mestrado em Fine Arts!O pai da moça era professor aposentado de História Antiga na referida Universidade e,os dois moravam numa antiga casa de campo nos arredores da cidade.O Dr Hernandez e Ylana sempre mantiveram uma aparência de amizade entre si e ninguém nunca suspeitara de que tivessem tido um caso tórrido de amor.Sómente o velho professor Henry sabia da história porque a filha lhe confidenciara...E só a ele Ylana revelara seus segredos que entretanto,voltavam agora das brumas do passado para atormentá-la.
(Cezarina)
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